Decidiu parar de frequentar o puteiro por um tempo. A economia com o uísque gastou em remédios para emagrecer. O preço da entrada, dois dias por semana, passou a ser gasto na academia. Só precisou da ajuda do pai para pagar a nutricionista, que lhe deu uma dieta rigorosa.
Mal sabia que rigoroso seria o destino. Por quase um ano seguiu tudo à risca. Perdeu muita banha, mas ganhou muita autoconfiança. Até demais. Parecia um jovem normal, e passou a ser mais influente entre os amigos. Uns se afastaram, não agüentariam o ex-gordo botando banca pra cima dos sempre magros. Os que sobravam, passaram a ser escudeiros, aquele gordo virou exemplo. Era tanta auto-estima que não conseguia parar quieto. Queria recompensar o tempo perdido, e sempre tinha algo a fazer: praticar esportes, festas, viagens, e até encontros. Num dia qualquer, lembrou-se do passado, e daquelas noites de voyeur no puteiro sujo que praticamente separava o bairro nobre da periferia. Lembrou-se da puta, e de suas conversas.
Resolveu fazer uma visita. Agora ele era o endinheirado que acenaria pra alguma gostosa. Procurou por ela. Mas não sabia o que iria fazer - se queria apenas se exibir, orgulhoso de suas mudanças, e retomar sua conversa para tentar consumar seu antigo desejo, ou se queria apenas provar algo ao seu ego e ir embora, retomando sua nova vida.
Na dúvida, sentou-se no mesmo lugar habitual, olhou à sua volta, e sentiu saudades do gordo que tinha se perdido ali tempos atrás, que tinha valores, respeitava os outros, pensava nos outros. Estava perdido em seu caráter. Pediu uma água e chamou o gerente.
- Pois não, senhor? Loira, morena, ruiva, nenhuma o agradou?
- Estou apenas procurando uma morena, olhos castanhos claros, um pouco mais baixa que eu, usava muitos adereços, sempre com uma pulseira rosa-choque que sempre ficava comigo ali no canto nas sextas à noite.
- Não o reconheço, mas sei de quem está falando. Essa aí se perdeu no mundo, não trabalha mais aqui faz um tempo.
Virou o seu copo d’água e pediu um uísque. O garçom, com seus ouvidos afiados, disse saber do paradeiro da puta. Disse que ela tinha guardado uma boa grana, largou a vida na noite, começou a estudar e agora trabalhava de garçonete numa rede famosa de fast-food.
Endereço em mãos, no dia seguinte foi atrás dela, que também estava bem diferente, tinha mudado a cor dos cabelos e o corte, deu uma leve engordada por causa do café e do refrigerante de cola que a mantinham acordada para estudar e, claro, por trabalhar em uma rede de fast-food.
Na fila, ele já estava ansioso, e pescoçava por cima dos ombros na tentativa de encontrá-la. Na sua vez, descreveu a moça, pensou até em citar o puteiro, mas achou mais sensato ocultar. Fez várias perguntas, demorou a desistir, até que o caixa perguntou qual seria o seu pedido. Sem sucesso, pediu um suco de laranja sem açúcar enquanto ela, a ex-puta, fritava as batatas com cuidado, ali pertinho dele, mas tão distante, pensando em seus planos ao terminar os estudos.
Ele terminou o suco e voltou pra casa, não sabia mais o que fazer, já que ela devia usar outro nome, outra aparência. Ela terminou o expediente e, debruçada nos livros, lembrou do cara no caixa, fazendo tantas perguntas à sua colega, e deu risada, pois achou que o cliente estava ‘flertando’, coisa rotineira em sua antiga profissão.
No dia seguinte, retomaram seus cotidianos e tentaram, mais uma vez, esquecer o passado.